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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

(Quase) Diário de um candidato a converso -4


Sente-se o calor do Sol, mas corre um vento fresco que, de vez em quando, provoca um ligeiro arrepio.
A baía de Cascais espraia-se perante mim. À minha esquerda estende-se Lisboa e as suas colinas. À minha direita a estrada para a Boca do Inferno.





Bancos de madeira, um quiosque, uma roda gigante. Os ramos das palmeiras agitam-se um pouco. Recordo Otis Redding, cantando "The Dock of the Bay" enquanto aguardo que as horas passem, para assistir ao acendimento da sétima vela do Hanukkah.

Enquanto espero, cruzam.se dezenas de pensamentos, dezenas de emoções. Recordo o encontro de ontem...pela primeira vez, em muitos, muitos, anos, senti-me "em casa", acolhido, quente, confortável. A conversa fluíu sem problemas, sem constragimentos, entre risos e lágrimas, hesitações e certezas, pensamentos e emoções, num amálgama indiscritível.
Saí do encontro mais forte, com mais certeza. Sinto que esta minha vontade é, também, a vontade d'Ele.
O caminho  vai ser longo, difícil, penoso, mas embora os pés fiquem cansados, doloridos, cheios de feridas, cada passo em frente será um passo de contentamento, maravilha e alegria.
Baruch Adonai Eloheinu!

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

(Quase) diário de um candidato a converso -3



                                                            My heart is in the East

    My heart is in the east, and I in the uttermost west—
    How can I find savour in food? How shall it be sweet to me?
    How shall I render my vows and my bonds, while yet
    Zion lieth beneath the fetter of Edom, and I in Arab chains?
    A light thing would it seem to me to leave all the good things of Spain—
    Seeing how precious in mine eyes to behold the dust of the desolate sanctuary.

 Yehuda HaLevy, XIIth Century

                                                                       Translated by Nina Salaman      







                                                                                     





quarta-feira, 26 de novembro de 2014

(Quase) diário de um candidato a converso -2



Por Rabino Avraham Steinmetz
Publicado na BC News junho, 2014


(...)para os religiosos judaísmo não é uma nacionalidade, não se trata de tradição, também não é uma cultura, nem uma raça. Ser judeu é pertencer a uma família, faz parte do DNA espiritual, e simplesmente não há como produzir isso.

Lembro-me das palavras do Rebe sobre conversão. “Depois que uma pessoa se converte, devemos reconhecer que o que de fato houve não foi uma conversão. Não existe isso de conversão – a palavra conversão supõe uma mudança – e não ocorreu qualquer mudança com esse indivíduo.”

O Rebe continua a explicação da seguinte maneira: em hebraico há palavras e seus antônimos que invariavel- mente originam-se de raízes distintas. Por exemplo, um servo que se tornou livre é eved shenishtachrer, diferentes raízes para eved (servo) e nishtachrer (libertado). Ou como o Rebe disse, “um homem pobre que ficou rico” – “oni shenish’asher”: novamente duas raízes: oni (um homem pobre) e ashir (rico).

Mas quando se trata de conversão, sempre consta ger shenitgaier; as raízes são idênticas, o que significa um convertido que se converte em vez de goy shenitgayer (um gentio que se converte). Portanto, quando uma conversão se dá de acordo com a lei judaica, devemos entender que trata-se de uma alma que sempre foi judia. Nada foi convertido, nada mudou. Por razões conhecidas pelo Todo-Poderoso, essa alma esteve encarcerada na conjuntura de uma mãe não-judia, e esse é o seu teste, a sua missão. Como há uma centelha judaica dentro dela que busca ser judia, após sua conversão reconhecemos que ela sempre foi judia.

Segundo o Código de Leis do Judaísmo, somos exortados a honrar um convertido mais do que um indivíduo que nasceu judeu, pois sua alma passou por uma prova muito mais rigorosa. O Rebe afirmava que um candidato à conversão deveria ser encaminhado a um rabino versado nas leis de conversão, pois saberemos se aquela alma é de fato judia somente quando a conversão é feita de acordo com a lei judaica. Esse é o único mecanismo externo de que nós, mortais, dispomos para entender algo de natureza espiritual, se a alma é ou não judia, pois se a conversão não for “casher”, i.e. feita em conformidade com a lei – halachá, jamais saberemos. Não é justo para com o próprio “convertido”, pois nem mesmo ele saberá quem realmente é. (...)

Texto extraido de "A Crise da Conversão - Quem é o Vilão?" que pode ser lido, na íntegra em:

http://www.pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/2651533/jewish/A-Crise-da-Converso-Quem-o-Vilo.htm









segunda-feira, 3 de novembro de 2014

(Quase) diário de um candidato a converso -1



   "Frederico, o Grande:- Pode citar-me uma só prova da existência de Deus, que não tenha sido desmentida?
   Jean Baptiste de Boyer, Marquês de Argens:- Sim, Majestade: Os Judeus!"

         in  História do Povo Judeu, Werner Keller


                                






    "Num capítulo inteiramente dedicado à Estrela d'Alva, (Barros Basto) no livro Terras de Morte e de Fé, escreve:«Foi porque ela anunciou a Abraham os primeiros alvores da nossa fé, foi ela que inspirou Moisés nas suas cogitações, foi ela que encorajou Zenon na sua luta contra a fúria das vagas, foi ela que anmou Cleanto nos seus rudes trabalhos nocturnos, foi ela que inebriou Marco Aurélio nas suas meditações, e foi ela que nos sorriu sobre Emor.
     A mim próprio o Grande Espírito ma indicou. Era uma noite doce, linda como por vezes nos apresenta o belo céu da Península. Estava sentado junto a uma janela, que, de par em par, se abria sobre o jardim, lia um livro que velhos pensadores, de remotas eras, haviam escrito. Levemente fatigado, fechei o livro, pousei-o sobre os joelhos e contemplei a míriade tremeluzente, onde se destacava a bela estrela.
     Não sei quanto tempo a estive contemplando.
     Então a razão perguntou a mim mesmo porque fora ela a inspiradora dos filhos da Verdade?
     E automáticamente, como que obedecendo a uma força oculta, eu abri o livro e do texto se destacou o seguinte período:
     - Eu te estabeleci para ser a luz das nações, para levar a minha salvação até às extremidades da terra»
     (...)
     Outra força oculta, o estigma ancestral, impeliu-o definitivamente para o judaismo"


          in  Ben Rosh , Elvira de Azevedo Mea & Inácio Steinhardt.


                        
 Uma pequena pedra, por efeito da erosão, ou do vento, move-se um pouco. Apenas alguns centímetros...e acontece uma avalanche.
    Assim começa esta história, transformada em (quase) diário.
    Desde a infância que tenho conhecimento das minhas raízes judaicas e essa noção tem influenciado muitas decisões, escolhas e opções, tomadas ao longo da vida.
    Tenho dedicado algum tempo a estudar e analisar as várias correntes filosóficas, de Espinoza aos teosofistas, li Eliade, Guénon, Blavatsky, Stern.
    Percorri os Andes, com Kant debaixo do braço (na mochila, para ser exacto), enquanto olhava os Condores, companheiros de viagem.
    Naveguei os sete mares, com Platão e Aristóteles.
    Calcorreei os desertos de África, com Maimonides...
    Percorri os trilhos da Antropologia, da Sociologia, da História.
    Estudei a heurística e a hermenêutica, mas sempre me mantive afastado da "religião activa", sempre a encarei nas suas vertentes filosóficas, morais, éticas, sempre na sua vertente "intelectual", nunca na sua vertente "emocional".
    Mas os anos passam, a forma de pensar (mais importante: a forma de sentir) muda e o que era pequena luzinha, ao longe no céu, começa a aumentar, cada vez mais, até se transformar numa "Estrela d'Alva", como lhe chamou Ben-Rosh.
    E o apelo, tantas vezes fechado, o chamamento, tantas vezes abafado, torna-se mais forte, sempre mais forte. até se transformar numa torrente que já nenhum dique consegue parar.
    O primeiro passo foi dado!
    Os seguintes virão, a seu tempo.