segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Dezembro 2011

 


And did those feet in ancient time.
Walk upon England's mountains green:
And was the holy Lamb of God,
On England's pleasant pastures seen!

And did the Countenance Divine,
Shine forth upon our clouded hills?
And was Jerusalem builded here,
Among these dark Satanic Mills?

Bring me my Bow of burning gold;
Bring me my Arrows of desire:
Bring me my Spear: O clouds unfold!
Bring me my Chariot of fire!

I will not cease from Mental Fight,
Nor shall my Sword sleep in my hand:
Till we have built Jerusalem,
In England's green & pleasant Land

  "And did those feet in ancient time"
  William Blake

domingo, 4 de dezembro de 2011

Dezembro 2011



Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.

Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.

Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os Reis guiando.

Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.

Poema de Natal
Manuel Maria Barbosa du Bocage



"Ave Maria"



Leontyne Price

sábado, 3 de dezembro de 2011

Dezembro 2011


 
"O sol trespassou os vitrais, em tonalidades douradas e carmesim, criando turbilhões de cor sobre as suas mãos… aquelas mãos de dedos longos e finos, manchados pelas tintas, ligeiramente torcidos pelo uso constante da pena.
O copista desviou a atenção da iluminura que desenhava, cuidadosamente. O olhar repousou, quase pela primeira vez, na mesa de trabalho, transformada pela luz dançante num pequeno mundo, multicolorido pelas gotas de tinta caídas, absorvidas pela madeira, misturadas com as lágrimas de emoção, que tantas vezes lhe corriam pelas faces, ao copiar antigos textos, vivendo aquelas histórias, sentindo as personagens que transcrevia…
 Levantou-se da mesa, com alguma dificuldade, esticando as costas doloridas pelas longas horas sentado e aproximou-se da janela, abrindo-a de par em par. O vento fresco da manhã entrou na sala, com força, trazendo o cheiro dos campos de alfazema, agitando-lhe os cabelos, arrepiando-o com a sua frescura, agitando o seu corpo e o seu espírito.
       A encosta descia, íngreme, algumas centenas de metros, até se abrir num longo vale, dominado pelo lilás, roxo e púrpura da alfazema florida, entremeada por farrapos de outras cores, num arco-íris deslumbrante.
      O vento, as cores, os aromas, eram um grito de vida, rompendo o silêncio monacal. Ali permaneceu, estático, os sentidos apurados, absorvendo as imagens, os sons, notando como as montanhas, ao longe, do outro lado do vale, subiam, altaneiras, contraforte sobre contraforte, em cores de azul-escuro, verde musgo e negro, com o sol matinal espreitando por cima, fazendo cerrar os olhos com a sua luz.
     Ao fim de uma eternidade, o copista, ajoelhando-se, levantou os braços num gesto de invocação, clamando:'Senhor, como é grande a Tua glória!'"

"Dominus Regnavit":

 

  Mozarabic Chant - Mass Praelegendum

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dezembro 2011



Ring out, wild bells, to the wild sky,
The flying cloud, the frosty light;
The year is dying in the night;
Ring out, wild bells, and let him die.

Ring out the old, ring in the new,
Ring, happy bells, across the snow:
The year is going, let him go;
Ring out the false, ring in the true.

Ring out the grief that saps the mind,
For those that here we see no more,
Ring out the feud of rich and poor,
Ring in redress to all mankind.

Ring out a slowly dying cause,
And ancient forms of party strife;
Ring in the nobler modes of life,
With sweeter manners, purer laws.

Ring out the want, the care the sin,
The faithless coldness of the times;
Ring out, ring out my mournful rhymes,
But ring the fuller minstrel in.

Ring out false pride in place and blood,
The civic slander and the spite;
Ring in the love of truth and right,
Ring in the common love of good.

Ring out old shapes of foul disease,
Ring out the narrowing lust of gold;
Ring out the thousand wars of old,
Ring in the thousand years of peace.

Ring in the valiant man and free,
The larger heart, the kindlier hand;
Ring out the darkness of the land,
Ring in the Christ that is to be. 

             Ring out, wild bells - Christmas Poem
  Alfred, Lord Tennyson

The Vienna Boys Choir




                         "Little Drummer Boy"

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dezembro 2011



Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,

Numa gruta, no bojo de um navio,

Num presépio, num prédio, num presídio,

No prédio que amanhã for demolido...

Entremos, inseguros, mas entremos.

Entremos, e depressa, em qualquer sítio,

Porque esta noite chama-se Dezembro,

Porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,

Duzentos mil, doze milhões de nada.

Procuremos o rastro de uma casa,

A cave, a gruta, o sulco de uma nave...

Entremos, despojados, mas entremos.

De mãos dadas talvez o fogo nasça,

Talvez seja Natal e não Dezembro,

Talvez universal a consoada.

                                            David Mourão-Ferreira, Cancioneiro do Natal


         


"Oh Come, all ye faithful"




                       King's College, Cambridge

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sem título





"Minha mãe, minha mãe!
Ai que saudade imensa
do tempo em que ajoelhava,
orando ao pé de ti.

Caía mansa a noite;
e andorinhas aos pares
Cruzavam-se, voando
em torno dos seus lares,
suspensos do beiral
da casa onde eu nasci.

Era a hora em que já sobre o feno das eiras
dormia quieto e manso o impávido lebreu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
e a lua branca, além, por entre as oliveiras,
como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu.

E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço
vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço
eu balbuciava minha infantil oração,
pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
que mandasse um alívio a cada sofrimento,
que mandasse uma estrela a cada escuridão."

Minha mãe

Guerra Junqueiro





Mãe:

Há menos andorinhas,não se escutam as ceifeiras e as oliveiras fenecem na intempérie do tempo.
Os anos passam mas não esqueço o teu riso fácil, as tuas lágrimas tristes, as tuas palavras quando me afastei de mochila às costas:"Meu filho,não vás...". Mas eu tinha que ir, Mãe. A ânsia de correr mundo,a vontade de navegar no mar imenso,de descobrir as minas de Salomão ou a ilha de Mompracem (lembras-te dos livros do Emílio Salgari, que me oferecias?). E corri mundo, Mãe, vagabundo dos mares, andarilho das montanhas. Gelei os pés na neve do Norte e queimei-os na areia do deserto, ao sabor do Austral vento tormentoso ou da cálida brisa do Levante. Mas sempre, Mãe, sempre lutando por um "alívio para cada sofrimento e uma estrela para cada escuridão".

Mãe:

Sei que estás longe de mim, mas estás sempre comigo e embora sinta - cada dia mais - a tua ausência, sei que alguém, algures neste mundo, levantando os olhos para o céu, encontrará uma estrela, mais brilhante que todas, portadora de luz e de esperança.

Feliz Aniversário, Mãe!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Ailton Rocha

Palavra e Melodia





 Inscrição para minha Lápide


Se algum dia eu tiver uma,
peço aos amigos que inscrevam
palavras em minha lápide:
algum verso colhido de meu riso,
da dor ou da resignação. Não importa!
Mas quero o meu sorriso presente
na derradeira hora da benção
para que todos cantem comigo.

E se,
nos tempos a virem, nada tiver de meu
que compre uma lápide bela e vã,
e tiver que adormecer a cabeça
sob a sombra úmida de um canteiro,
peço-vos que guardem no coração
a minha mais pura lembrança.

E que o corpo seja húmus para a terra,
o meu coração seja vida para as flores,
e que o nome retorne ao que era:
palavra nas águas, brisa nas árvores.

Que todos os meus andrajos da vida
sejam devolvidos à mesma terra
de que foram feitos. Porque a alma,
esta eu devolvo pessoalmente

A Deus.

Ailton Rocha





       Poços de Caldas, no estado de Minas Gerais, Brasil, não se limita a apresentar-nos belas paisagens, a hospitalidade do seu povo ou a "Pedra do Balão". Por entre as muitas maravilhas surge a beleza das palavras de um dos mais interessantes poetas da língua Portuguesa contemporânea: Ailton Rocha.
       Do seu "Palavra e Melodia", que os leitores do "Memórias" poderão encontrar nos Sites Amigos, reproduzo uma "Inscrição". "Inscrição" para ler, reler, tornar a ler e meditar. Para pensar, analisar e - acima de tudo - sentir. Porque, essencialmente, a "Inscrição" deve ser lida com o coração. Não importa se está "bem escrita" ou se a "métrica" é perfeita (e tanto uma como outra se aproximam da perfeição...). O que verdadeiramente importa é o sentimento, a emoção e a sabedoria que nos transmite e se, para usar as palavras de Augusto Gil, " uma infinita tristeza, uma funda turbação, entra em mim, fica em mim presa", essa mesma tristeza entrelaça com algumas das mais belas palavras escritas neste dealbar do século XXI.