sexta-feira, 28 de maio de 2010

Fernando Lopes Graça


Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!


José Gomes Ferreira é mais um dos poetas "esquecidos", mas que sempre, enquanto o "Memórias" existir, serão aqui recordados. Recordados pela beleza das suas palavras, pela dureza das suas estrofes, pela verdade nas suas atitudes, pela coragem nos seus corações. Igualmente, muitos outros vultos da cultura Portuguesa, defensores intransigentes da Liberdade, se levantaram contra o regime iniciado em 28 de Maio. Fernando Lopes Graça, um dos maiores compositores nacionais, contemporâneos, foi o autor da partitura, entretecendo, na sua heróica música, o clamor das palavras do poeta. Um grito de ousadia, numa terra silenciosa...

28 de Maio de 1926


Nestes últimos meses o tempo disponível tem sido tão pouco que até as mensagens publicadas neste espaço diminuiram drásticamente, mas, ainda assim, não posso deixar passar este dia, sem relembrar o golpe militar de 1926. Recordo que o movimento, incentivado pelos sectores mais reaccionários da sociedade Portuguesa, acendeu o rastilho em 27 de Maio, com o inflamado discurso de Cunha Leal. É a Braga que chega o General Gomes da Costa ao fim do dia 27 e é de Braga que arranca o "Movimento", em 28 de Maio de 1926, numa emulação da fascista "Marcha sobre Roma"...
A 29 de Maio demite-se o governo, a 31 de Maio os golpistas determinam o encerramento do Congresso da República e Bernardino Machado demitia-se. A 3 de Junho Oliveira Salazar era chamado para a pasta das finanças. A génese do Estado Novo estava em marcha, em direcção a meio século de tirania...
Apenas mais uma nota: o inflamado Cunha Leal, mentor do golpe militar, é preso e deportado, logo em 1930...

Imagens da minha varanda


01 Maio 2010
É interessante como, em viagem, reparamos na beleza de uma paisagem ou apreciamos um pôr-de-sol, mas, normalmente, não estamos atentos ao que se encontra perto de nossa casa. Esse o motivo porque pretendo, sempre que possível, colocar aqui algumas imagens do mundo, como se vê quando olho por uma janela ou assomo à varanda.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Richard Strauss


"Also spracht Zaratustra" é um poema sinfónico, da autoria de Richard Strauss. Acredito que uma percentagem das pessoas associe esta composição ao filme "2001: Odisseia no Espaço", de Stanley Kubrick, magistralmente acompanhando a "alvorada do homem". Também a exploração espacial se encontra, ainda, na sua "alvorada" ( embora Strauss, neste poema sinfónico, pretenda, antes de tudo o mais, dar asas à sua busca do "homem interior", tão querido aos maçons...)

Atlantis



O Atlantis descolou no passado dia 14, para a missão STS-132, que se prolonga por 12 dias. Esta será a última missão do Atlantis, acompanhando o aproximar do fim do programa "space shuttle". Devido a múltiplos condicionalismos, os programas espaciais, como é hábito, são relegados para um plano secundário, subalternizados pelas preocupações económicas dos estados.
Claro que a subserviência dos estados, em relação ao que agora, eufemísticamente, se chamam os "mercados" é uma questão que não cabe nesta mensagem, mas convém meditar na forma pouco inteligente como os dirigentes políticos e/ou os líderes sociais encaram as questões realmente importantes, como tomar medidas para combater as mudanças climáticas, ou aprofundar a investigação nos campos sociais e científicos, colocando estes - sempre - ao serviço do bem estar social e do progresso das nações.
Seja como for, as agências espaciais, vão desbravando novos caminhos, com "engenho e arte"...

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril de 1974




Eu Sou Português Aqui

Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

José Fanha
Em Portugal, passados 36 anos, cada vez menos se sente "Abril a voar no peito". Cada vez mais reduzimos a nossa existência ao arrebique da moda, ao gadget tecnológico, ao concurso de dança...cada vez menos pensamos nos "outros", que vivem paredes meias connosco, mas que não conhecemos e não queremos conhecer, porque, ao conhecer, estaremos a abrir uma brecha, na muralha da ausência de sentimento e vamo-nos sentir incomodados, talvez até, pensar que é "preciso fazer alguma coisa", para alterar o estado degradante a que chegou a nossa sociedade.
Mas, felizmente, são pensamentos breves, fugazes, rápidamente ultrapassados pelo interesse em saber o que aconteceu à "fulaninha" da nóva série de vampiros que passa na televisão.
A nossa sociedade, fundamentalmente, preocupa-se em permitir-nos viver sem "pensar", sem "reflectir" sobre a nossa vida, o nosso mundo e o que nos rodeia. Bombardeia-nos, diáriamente, com mensagens, directas ou não, transformando o acessório em algo que reputamos imprescindível para viver. Aquietamos a nossa consciência dando contributo para os desalojados de uma tempestade, mas, somos incapazes de ir "mais além".
Até quando?

sábado, 24 de abril de 2010

25 de Abril de 1974

Um dos grandes, senão o maior, erros, do regime ditatorial Português, foi não ter entendido, ou recusar-se a entender, que a independência das colónias era imparável. Os regimes colononialistas, após a II Guerra Mundial, mais ainda depois de Dhien Bhien Phu e da crise do Suez, tentaram salvaguardar os privilégios possíveis, mantendo a influência política e económica, mais ou menos encapotada, mas, necessitaram de aceitar a independência dos territórios ultramarinos. O governo Português, "orgulhosamente só", apenas conseguiu chacinar as populações Africanas, e mandar para a morte, os seus próprios filhos, em "defesa" de uma "Pátria" irreal.

Quando comecei a escrever este "post", pensava concluir com o belo e terrível poema de Fernando Pessoa "O menino da sua Mãe", mas, entretanto, um outro me aflorou a memória: "Menina dos Olhos Tristes", que escutei, pela primeira vez, por 1972/73, numa estação de rádio estrangeira, e rememorei toda essa época, reviví esse tempo soturno, triste, de ar pesado que sofucava, que prendia os pulmões, não os deixando respirar, ao mesmo tempo que prendia os sentimentos e acorrentava os corações de um povo inteiro. Algumas vozes, corajosas, mantinham, no entanto, acesa a chama da luta pela Liberdade, que, ainda que silenciosamente, se aproximava..
A voz é de Adriano Correia de Oliveira, uma das mais belas vozes Portuguesas da segunda metade do século XX.

Glória aos esquecidos!



Menina Dos Olhos Tristes
Menina dos olhos tristes
o que tanto a faz chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo
olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar