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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

The Road goes ever on...






"The Road goes ever on and on
Down from the door where it began.
Now far ahead the Road has gone,
And I must follow, if I can,
Pursuing it with eager feet,
Until it joins some larger way
Where many paths and errands meet.
And whither then? I cannot say” 

 J.R.R. Tolkien, The Fellowship of the Ring



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Regresso



Subi ao convés.O frio cortante do vento Antártico forçou-me a apertar mais a parka e levantar o capuz. Encostei-me à amurada, não sem antes ter acendido o cachimbo, protegido do vento. O mar, cinzento, pouco encapelava. O navio avançava, suavemente, rasgando as águas à sua frente, deixando um rasto de espuma e vagas que se espalhavam em ondas cada vez mais pequenas e distantes.




 Ao longe, onde o céu se confundia como mar, surgiam os primeiros alvores da madrugada, em tons de laranja carmesim e dourado.
Uma gaivota, pousada no mastro, levantou a cabeça,lançou o seu lamento soluçante, quebrando o silêncio, e abrindo as asas levantou vôo, para mais um dia de luta pela sobrevivência, entre céu e mar, voando alto para se aquecer aos raios do sol nascente ou velozmente mergulhando na tentativa de pegar um peixe imprudente.


Os seus gritos ecoavam, pelo mar distante, levados pelo vento, num desafio à vida, num grito de conquista, num desalento de derrota, num crocito de resistência à adversidade.
Segui o seu vôo enquanto fumava o cachimbo, olhei para as muitas cores do mar e para o nascer do dia, escutei a gaivota, companheira de viagem e pensei: "é tempo de regressar a casa".


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Hospital de Santo António




O silencio apenas é cortado pelos "bips" das máquinas, a escuridão iluminada pelos traços verdes dos monitores que controlam os sinais vitais. Nos cuidados intensivos a noite, para quem não dorme, é lenta, pesada, sufocante.
Nas trevas, diante de mim, vejo o monstro - todo ele ângulos, retorcidos,inomináveis. Confunde-se com o negrume de onde vem.


Rodopia, lentamente, observando,analisando, procurando o alvo mais débil...num ápice lança o assalto: as asas serrilhadas abrem-se e mergulha, como um relâmpago, mais escuro do que a escuridão, como se a sua escuridão não possa ser iluminada por nenhuma luz
A calma monótona rasga-se, súbitamente. Os sinais vitais de um qualquer doente alteram-se. Surgidos não se sabe de onde, os enfermeiros acorrem, pressurosos, no auxílio. Uma luz dilacera a noite, e vozes abafadas informam os colegas do que se passa, do que fazer:"segura desse lado", "aos três", "um cateter", "o oxigenio já está...".
Passam uns minutos - dois, cinco talvez.
O doenta estabiliza. Assim como apareceram,desaparecem, não sem passar uma rápida vista de olhos por todos os monitores.
Deitado na escuridão insone, sinto mais conforto, sinto-me mais seguro.
O monstro continua ali, à minha frente, mas sei que os anjos da noite velam permanentemente e que não deixarão o monstro agarrar ninguém sem dar luta até ao fim...




As memórias de um internamento recente no Hospital Geral de Santo António, com passagem pela UCIC (Unidade de Cuidados Intensivos Coronários), ainda são demasiado intensas para ser descritas, mas aqui fica o público agradecimento a todo o pessoal daquele centro hospitalar. Todos, sem excepção, foram importantes para me salvar a vida e me dar suporte nos dias que se seguiram.
Todas essas histórias aqui encontrarão espaço, à medida que for capaz de as contar...
Não posso, no entanto, deixar de salientar, especialmente, os elementos do INEM que me estabilizaram in loco e me transportaram, prevenindo o hospital para que tudo estivesse "a postos" e o trabalho inexcedível dos enfermeiros, esses verdadeiros "anjos brancos" que surgem sempre, ao nosso lado,quando mais pensamos que estamos sós, na luta pela vida...

domingo, 29 de julho de 2012

Tisha B'Av 2012




"(...)
19 Lembra-te da minha aflição e do meu pranto, do absinto e do fel.

20 Minha alma certamente disto se lembra, e se abate dentro de mim.

21 Disto me recordarei na minha mente; por isso esperarei.

22 As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as

suas misericórdias não têm fim;

23 Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade.

24 A minha porção é o SENHOR, diz a minha alma; portanto esperarei nele.

25 Bom é o SENHOR para os que esperam por ele, para a alma que o busca.

26 Bom é ter esperança, e aguardar em silêncio a salvação do SENHOR. 

(...)"

Lamentos de Jeremias, cap. 3







 Nove de Av. Destruição do Templo, em Jerusalém. Começa o exílio

na Babilónia.


      




 "(...) 
19 Remembering mine affliction and my misery, the wormwood and the gall.
20 My soul hath them still in remembrance, and is humbled in me. 
21 This I recall to my mind, therefore have I hope. 
22 It is of the LORD'S mercies that we are not consumed, because his compassions fail not. 
23 They are new every morning: great is thy faithfulness. 
24 The LORD is my portion, saith my soul; therefore will I hope in him. 
25 The LORD is good unto them that wait for him, to the soul that seeketh him. 
26 It is good that a man should both hope and quietly wait for the salvation of the LORD. 
 (...)" 

The Laments of Jeremiah, chap.3 
 The ninth of Av. Babylonians destroy the Temple, in Jerusalem. The 70 years exile starts.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sem título





"Minha mãe, minha mãe!
Ai que saudade imensa
do tempo em que ajoelhava,
orando ao pé de ti.

Caía mansa a noite;
e andorinhas aos pares
Cruzavam-se, voando
em torno dos seus lares,
suspensos do beiral
da casa onde eu nasci.

Era a hora em que já sobre o feno das eiras
dormia quieto e manso o impávido lebreu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
e a lua branca, além, por entre as oliveiras,
como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu.

E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço
vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço
eu balbuciava minha infantil oração,
pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
que mandasse um alívio a cada sofrimento,
que mandasse uma estrela a cada escuridão."

Minha mãe

Guerra Junqueiro





Mãe:

Há menos andorinhas,não se escutam as ceifeiras e as oliveiras fenecem na intempérie do tempo.
Os anos passam mas não esqueço o teu riso fácil, as tuas lágrimas tristes, as tuas palavras quando me afastei de mochila às costas:"Meu filho,não vás...". Mas eu tinha que ir, Mãe. A ânsia de correr mundo,a vontade de navegar no mar imenso,de descobrir as minas de Salomão ou a ilha de Mompracem (lembras-te dos livros do Emílio Salgari, que me oferecias?). E corri mundo, Mãe, vagabundo dos mares, andarilho das montanhas. Gelei os pés na neve do Norte e queimei-os na areia do deserto, ao sabor do Austral vento tormentoso ou da cálida brisa do Levante. Mas sempre, Mãe, sempre lutando por um "alívio para cada sofrimento e uma estrela para cada escuridão".

Mãe:

Sei que estás longe de mim, mas estás sempre comigo e embora sinta - cada dia mais - a tua ausência, sei que alguém, algures neste mundo, levantando os olhos para o céu, encontrará uma estrela, mais brilhante que todas, portadora de luz e de esperança.

Feliz Aniversário, Mãe!

domingo, 25 de setembro de 2011

Outono



             Terminam as colheitas: celebramos o
Mea'n Fo'mhair,  a generosidade da Terra. Festejamos os últimos dias quentes enquanto
preparamos a terra para as novas sementeiras.

         Ao fim do dia regressamos por um caminho atapetado a verde esmeralda  e castanho dourado. Sentimos os pés cansados e no rosto a brisa fresca, prenúncio do frio agreste que se aproxima, mas o fumo na chaminé dá-nos força para acelerar o passo. 
         Ao entrar sentimos o calor da lareira, o cheiro do pão, o aroma da sopa acabada de fazer...estamos em casa.





quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Regresso





Caminho na neblina de chuva que cai suavemente, prenúncio do Outono que se aproxima.
Sente-se o cheiro a terra molhada e o perfume dos castanheiros.
O pensamento perde-se nas lágrimas derramadas do céu,liberta-s e vislumbra outra estrada... 
perdida no tempo, entre rosas selvagens e relva verde, subindo, subindo,subindo... 
para Tintagel, escutando o troar das ondas e o canto das gaivotas...


"(...)
This is a sacred place,
for those who leave,
leave better than they came.

But those who stay, while they are here,
add, with their sleepless nights and tears,
pale sprigs of ivy to the walls
of these hallowed halls."



terça-feira, 10 de maio de 2011

Yom Ha'atzmaut


                  Por favor escutem atentamente a gravação de uma transmissão da BBC, em ondas curtas, de uma gravação efectuada em Bergen-Belsen, em 20 Abril de 1945.


                 Please listen carefully  recording made by a BBC reporter, in Bergen-Belsen on April 20th, 1945 and later recorded from a shortwave transmission.

                 " They wanted the world to hear their voice"

 



May Israel live for everlasting times!

domingo, 8 de maio de 2011

Yom HaZikaron


            










“Invictus”

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

 by William Henley


         






"Aqui estou e aqui ficarei,enquanto puder levantar a minha Bandeira e defender a minha Pátria.E quando, finalmente,eu cair, que outro empunhe a Bandeira e não permita que toque no chão!"


                 

sábado, 16 de abril de 2011

Charles Chaplin



"Speak, it is our only hope"



"(...)
 Greed has poisoned men's souls; has barricaded the world with hate; has goose-stepped us into misery and bloodshed. We have developed speed, but we have shut ourselves in. Machinery that gives abundance has left us in want. Our knowledge as made us cynical; our cleverness, hard and unkind. We think too much and feel too little. More than machinery we need humanity. More than cleverness, we need kindness and gentleness. Without these qualities, life will be violent and all will be lost. The aeroplane and the radio have brought us closer together. The very nature of these inventions cries out for the goodness in man; cries out for universal brotherhood; for the unity of us all.

Even now my voice is reaching millions throughout the world, millions of despairing men, women, and little children, victims of a system that makes men torture and imprison innocent people. To those who can hear me, I say "Do not despair." The misery that is now upon us is but the passing of greed, the bitterness of men who fear the way of human progress. The hate of men will pass, and dictators die, and the power they took from the people will return to the people. And so long as men die, liberty will never perish."



(...)
Soldiers! Don't fight for slavery! Fight for liberty! In the seventeenth chapter of St. Luke, it’s written “the kingdom of God is within man”, not one man nor a group of men, but in all men! In you! You, the people, have the power, the power to create machines, the power to create happiness! You, the people, have the power to make this life free and beautiful, to make this life a wonderful adventure. Then in the name of democracy, let us use that power.

Let us all unite. Let us fight for a new world, a decent world that will give men a chance to work, that will give youth a future and old age a security. By the promise of these things, brutes have risen to power. But they lie! They do not fulfill their promise. They never will! Dictators free themselves but they enslave the people! Now let us fight to fulfill that promise! Let us fight to free the world! To do away with national barriers! To do away with greed, with hate and intolerance! Let us fight for a world of reason, a world where science and progress will lead to all men’s happiness.
(...)




Palavras tão verdadeiras em 1940  como em 2011. Os ditadores podem não usar farda mas fato e gravata; podem não usar discursos "inflamados" mas murmurar nos corredores; podem não usar a força das armas mas a força do ouro...mas não são menos sanguinários.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Auschwitz

 20/05/1940 - 27/01/1945











   Auschwitz - Birkenau

1713 Dias

41112 Horas

  




 Entre a "Inauguração" e a Libertação, foram assassinadas cerca de 875
 pessoas por dia.
 Mais de 36 pessoas  assassinadas,EM CADA HORA, ao longo das 41112 horas
 de existência dos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau.
 41112 horas de terror e chacina.



















    Possa a chama da Liberdade arder,  firme e forte, para que a chama  dos crematórios não volte, nunca mais, a acender-se.






       


Gorecki's "Symphony of Sorrowful Songs"

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Sailing

Todos temos que navegar por mares tormentosos, afrontar tempestades, ultrapassar as ondas alterosas e imensas que se levantam perante a proa do nosso navio, com a coragem da ternura,  com a ousadia do coração  e com a determinação do amor.

     





Sailing

I am sailing, I am sailing, home again 'cross the sea
I am sailing stormy waters, to be near you, to be free

I am flying, I am flying, like a bird 'cross the sky
I am flying, passing high clouds, to be near you, to be free

Can you hear me, can you hear me, through the dark night far away
I am dying, forever crying, to be near you, who can say

Can you hear me, can you hear me, through the dark night far away
I am dying, forever crying, to be near you, who can say

We are sailing, we are sailing, home again, 'cross the sea
We are sailing, stormy waters, to be near you, to be free

Oh Lord, to be near you, to be free
Oh my Lord, to be near you, to be free
Oh my Lord, to be near you, to be free
Oh Lord

domingo, 16 de janeiro de 2011

El Condor

         De Ushuaia até La Paz






  
Ao longo da vida, percorri muitos caminhos. Uns piores, outros melhores, mas todos interessantes.
Passados todos estes anos, olho para trás e lamento não ter levado uma máquina fotográfica comigo. Mas,apesar de tudo, as imagens ainda estão presentes na memória e embora estejam esmaecidas pelo tempo, por
vezes, basta  uma palavra, uma imagem na TV, uma notícia de jornal, para reavivar as chamas adormecidas das minhas histórias e relembrar, de novo, os locais, as pessoas ou as paisagens. Sentir outra vez, os cheiros e aromas, o vento no rosto, o frio ou o calor...
Esta pequena montagem é apenas uma pequena homenagem aos meus companheiros nos longos 5000 km  desde a Terra do Fogo até à Amazónia Boliviana, com a Cordilheira dos Andes delimitando a fronteira, ao longe...
   

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

L'albatros

                  










     L'Albatros

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.

  Charles Baudelaire in "Les Fleurs du Mal"







                        O Albatroz

Muitas vezes, para se entreter, os homens da equipagem
Caçam os albatrozes, grandes aves do mar
Que seguem, indolentes companheiros de viagem
O navio que desliza sobre os abismos amargos

Mal são soltos sobre as tábuas
Os reis do azul,desajeitados e com vergonha
deixam cair tristemente as suas grandes asas brancas
como remos soltos arrastando no chão

O viajante alado, como está mole e com medo!
Ele,antes tão belo,como está cómico e feio!
Um queima-lhe o bico com o cachimbo
Outro imita o enfermo, coxeando!

O poeta é como o príncipe das nuvens
que assombra a tempestade e se ri do arqueiro;
Exilado na terra por entre as vaias
Suas asas de gigante impedem-no de andar.

  Charles Baudelaire in "As Flores do Mal"

  Assim é o Albatroz. Majestoso, suave e terno, grito de Liberdade planando entre o azul do céu e o azul do mar, afrontando ventos e tempestades, sofrendo fome e sede e frio, mas sempre belo.

  Nota: o vídeo retrata o albatroz errante, da Tasmânia. Enquanto marinheiro, não estive próximo, mas vi muitos, entre as Ilhas Falkland e  da Geórgia do Sul.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

1958

Julho de 1958
 
Excertos de uma carta, escrita por D.António Ferreira   

Gomes, Bispo do Porto, a António de Oliveira Salazar, então Presidente do Conselho.

(...)
Perante um qualquer problema de salários, de distribuição dos frutos do trabalho, das condições destes, ou da sua produtividade, que terá a dizer em concreto a mera justiça legal?
Se nascem conflitos do estado de enervamento dos operários, do espírito despótico ou mesquinho do Patrão, do atraso sociológico duns e doutros, das crises de desenvolvimento duma indústria, como se fará ouvir a voz comum?
Quando os melhores teóricos da economia e da sociologia, se confessam desorientados com certas evoluções do mundo do trabalho e da economia – não vemos nós hoje incorporadas nas instituições certas coisas que ontem nos pareciam subversivas?... – quando, e mesmo em abstracto, questões se apresentam cuja solução só se pode esperar do livre jogo das forças sociais, que poderá dizer o defensor do interesse colectivo, um pobre delegado do Instituto Nacional do Trabalho a essas questões postas na complexidade do concreto?
Tomemos por mero exemplo as greves de Abril em Espanha, que os jornais disseram provir de uma exigência de redução de horas de trabalho (embora pareça que isto não é verdade). Logo se falou, parece que oficialmente, de comunismo. Mas não tinha o Papa, pouco antes, falado da perspectiva da diminuição do tempo de trabalho e das novas responsabilidades daí emergentes, para a Igreja e para a Sociedade?...

(...)

 – Mas V. Ex.ª alarga ainda a perspectiva, põe frente a frente o liberalismo e o comunismo – parecendo excluir a possibilidade essencial de um terceiro – e, sob o ângulo do «interesse colectivo» conclui que o comunismo, ao varrer das leis e da prática o livre jogo das forças sociais, «tem inteira razão». Vários regimes de autoridade – o fascismo confessamente –, se puseram em dialéctica com o comunismo, ou vieram a chegar evolutivamente a essa posição. Uma mentalidade comunista deve saudar tal facto, com realização precisa do seu programa e suas previsões – a síntese provocada pela antítese.
Mas na medida em que aqui se incluam as questões fundamentais da liberdade e autoridade, da justiça e da ordem, da pessoa e da colectividade – e em boa verdade não vejo como afastar essas questões de perspectiva tão larga e de expressão tão categórica – nessa mesma medida tenho de pensar que o comunismo não tem razão nenhuma. E com a mesma lógica e pelos mesmos motivos penso que o comunismo pode coincidir com certas incidências concretas da sociologia cristã, que lhe é anterior, sem que por isso haja razão ou vantagem em falar de filo-comunismo para lançar a divisão entre os cristãos.
Parece que foi Durkheim quem disse que «para muitos o comunismo era menos uma ciência que um grito de dor». Por mim vejo todos os inconvenientes em transigir com a ciência; mas não vejo vantagem nenhuma em afogar o grito de dor.

(...)
 – «Não esquecemos os egoísmos humanos, nem os abusos nem mesmo a pobreza ou a miséria material ou oral que daí possam derivar; digo que há formas mais correctas e seguras de dominá-los, com benefício geral».
Devo confessar que não conheço essas formas. Tenho procurado debruçar-me sobre a doutrinação do Santo Padre (Pio XII), o grande e imparcial observador (além do mais), bem como sobre o ensino dos bispos do mundo, primeiros e últimos defensores da paz cívica entre o povo cristão, e não tenho conseguido divisar que as soluções apontem no nosso sentido.
Tenho prestado sempre a maior e mais benévola atenção às palavras de V. Ex.ª e às dos mais responsáveis expoentes da Situação e, em filosofia politica e sociológica, não tenho conseguido tranquilizar-me nem quanto à correcção nem quanto à segurança.
Todos estamos de acordo em que há dois problemas fundamentais, sem cuja solução não poderá haver paz social, sejam quais forem as aparências.
O primeiro é que os frutos do trabalho comum devem ser divididos, com equidade e justiça social entre os membros da Comunidade, quer no ponto de vista dos indivíduos, quer no dos sectores sociais (e aqui podemos pensar especialmente na lavoura e na miséria dos trabalhadores do campo).
O segundo é que, seja qual for o conforto ou riqueza que se atribuam a um indivíduo ou a uma classe, nunca eles estarão satisfeitos enquanto não experimentarem que são colaboradores efectivos, que têm a sua justa quota parte na condução da vida colectiva, isto é, que são sujeito e não objecto na vida económica, social e política.
Quando o exame se impõe, parece que as críticas negativas do primeiro ponto são unânimes, quer elas partam de oposicionistas, quer elas partam de oposicionistas ou situacionistas.
Quanto ao segundo ponto, quase não se fala, o que poderá talvez compreender-se por a negatividade do primeiro barrar o caminho ao segundo. E no entanto talvez a incompreensão para o segundo seja a causa do que no primeiro é clamoroso e parece inexplicável e insolúvel. Porquanto, na melhor das hipóteses, encontramos entre nós apenas o paternalismo paternal. Ora é já hoje mais que evidente que o mundo operário e camponês não podem ser educados pelo patronato. Não podem nem querem; e temos de lhes reconhecer a razão por mais que desejemos e preguemos o bom sentido social dos patrões, onde essa compreensão exactamente devia começar. E nem será necessário para isso lembrar como muitas vezes essa «educação» facilmente se transforma em «ensino» e depois em «ensinadela».
Patrões muito «bons» e muito «católicos», com toda a naturalidade nos falam esta linguagem, a nós bispos, como se nós houvéssemos de aprovar autênticas declarações de guerra social. Se a não podemos aprovar do lado menos responsável, havemos de a aprovar do lado mais capaz, mais obrigado e mais responsável?
Que o Estado venha educar ou «ensinar» os trabalhadores também é do maior melindre. Não seria preciso vivermos numa época de «suspeição ideológica» para que os operários desconfiassem do favor; na situação presente, é quase fatal que o operariado veja, como vê, no Estado o aliado do patronato.
Mas será realmente o Estado uma sociedade «docente»? Parece que em todo o mundo não-totalitário essa noção errada desaparece com grandes vantagens em todos os domínios, principalmente no do trabalho.

(...)
 Uma coisa que era necessária e foi maravilhosa, até politicamente, no princípio da era do resgate, pesou tremendamente na era que V. Ex.ª chamou, se bem me recordo, do engrandecimento. Um financismo à outrance (operando aliás pela compressão dos preços, contra o aumento da circulação fiduciária), invertido num economismo despótico, actuando dentro de uma sociedade cujos erros venho procurando apontar, não podia deixar de resultar e resultou efectivamente (com excepção do período inicial dos abonos de família) em benefício dos grandes contra os pequenos e finalmente na opressão dos pobres.
Não esqueço as grandes possibilidades de trabalho que o Estado e as grandes empresas criaram; isso porém não impediu que se estabelecesse e fechasse o que podemos chamar o ciclo da miséria.
Falando assim, eu não quero tomar partido pelos excessos do socialismo ou pelo descalabro financeiro; apenas não posso deixar de pensar que na acção política, como em tudo, e mais que em tudo, a virtude está no meio e que, se o equilíbrio financeiro é óptimo, nunca deve deixar de estar ao serviço do homem, porque aliás corruptio optimi pessima. Não perco de vista as dificuldades, ansiedades e perigo que as más finanças oferecem por este mundo; mas parece-me que, através de tudo, se procura salvar um princípio verdadeiro: que as finanças são o primeiro servidor e não podem ser, senão excepcional e transitoriamente, o senhor da Nação (como o dinheiro para o homem indivíduo...).
(...)

Passaram quase 53 anos...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Aniversário



Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

   Mãe


   Eu cresci.


   Cresci cedo (demasiado?) e rápido, como se o mundo fugisse à minha frente, como se o tempo escapasse tão rapidamente que não o conseguisse agarrar.


   Mãe


   Eu não sei escrever como os poetas, que tanto amavas, mas as palavras de outros, maiores do que eu, falam por mim.

  Mãe

  O meu coração cresceu e ficou tão grande que não consegui guardá-lo só para Ti, porque não entendia o amor de Mãe, porque não era capaz de perceber o quanto me querias proteger e quanto prezavas a vida que eu teimava em dar.


  E dei Mãe. Entreguei a minha vida, com ambas as mãos,até  o meu sangue regar a areia escaldante e deslizar para o vazio,satisfeito por o meu coração não ter medo.


  E corri mundo Mãe, com as Gaivotas no mar e com os Condores em terra;desci aos vales fundos, onde o Sol não chega,subi altas montanhas onde o Sol queima os olhos. Senti o frio vento Norte e a cálida brisa iluminada pelo Cruzeiro do Sul...

 
   Mas não me esqueci das rosas.

   Feliz Aniversário, Mãe.


 

sábado, 11 de setembro de 2010

September, 11th

Liberty will prevail !



Em 2009 escrevia o "Memórias e Novidades":

"11 de Setembro é,também,a recordação de um Povo,que não se rendeu à destruição e ao medo,a recordação dos sobreviventes,dos bombeiros,dos polícias,de todos os que se entre ajudaram e se apoiaram aos ombros uns dos outros, companheiros na luta pela salvação.
11 de Setembro é a história do Homem Comum,que,colocado perante a opção última,escolhe não se vergar ao medo e à dor,transfigurando-se no herói anónimo que auxilia o próximo,no momento do perigo iminente.
11 de Setembro é a história da vitória do Homem Comum."

Hoje, 11 de Setembro de 2010, recordamos, em especial, os Bombeiros e os Polícias caídos em 2001, que ofereceram o seu bem mais precioso, a vida, em troca da vida de todos aqueles que salvaram.




343 Bombeiros

72 Polícias

1 K-9







Todos permanecerão vivos na memória individual e colectiva. Todos, de uma forma ou de outra, estão amalgamados com as pedras, os escombros, o asfalto e o vidro. Todos se tornaram parte da cidade.
Ao passar pelo Ground Zero recordem que os vossos pés pisam terra regada com sangue e lágrimas. Lágrimas de desespero e de derrota, mas, também, lágrimas de esperança, de fé inquebrantável e de vitória!!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Para o João

Não olhes para trás...
O caminho já percorrido foi longo e eu sei que os teus pés estão cansados, mas, agora que mais de meia viagem está feita, não é hora de parar, a não ser para um curto descanso.
Recordo quando, pela primeira vez, me falaste na Ponte Bifrost, a Ponte do Arco-Íris,e de como ela interliga a Terra do Meio a Asgard. Na memória permanecem as histórias, as lendas, os mitos( a verdade?).
Não olhes para baixo, porque a ponte é estreita e não se podem dar passos em falso.
Olha em frente e para cima. Heimdall espera-te, para te acolher, de braços abertos e te apertar num abraço, como um irmão ansioso pela tua chegada. A mesma vontade deste irmão que não te pode abraçar, a não ser com o pensamento.
Permanece forte, caminha com passos firmes, porque a Grande Porta do Reino dos Deuses já está próxima!
Não olhes para trás...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ha'Tiqva





Em 8 de Março de 1944, mais de 3800 Judeus, de orígem Checa, ao aperceberem-se de que vão ser exterminados na cãmara de gás, decidem-se pelo derradeiro acto de desafio, de coragem, de resistência ao opressor, cantando "Ha'Tikva"...
Sobreviveram 37.



Ha'Tiqva

" Enquanto no coração de um Judeu,
A sua alma ansiar,
Ao olhar para leste,
Para a terra de Sião,
A esperança não estará perdida.
A esperança de dois mil anos,
De sermos um povo livre,
Na nossa terra,
A terra de Sião e de Jerusalém"

27 de Janeiro de 1945

LIBERDADE !!!!





Em 27 de Janeiro de 1945, as tropas Soviéticas ocupam Auschwitz e Birkenau
libertando os prisioneiros que ainda restavam, pouco mais de 7000.
Dez dias antes, 60000 prisioneiros foram retirados, em marcha forçada, na direcção de Bergen-Belsen a, aproximadamente, 800 km de distância. Apenas 20000 chegaram ao destino. Mais 40000, a juntar ao milhão e meio que já tinham sido assassinados.
A terrível história de Auschwitz, em polaco Oswiecim, prolongou-se por pouco mais de quatro anos. Se alguma vez o inferno, como exemplo de crueldade premeditada, se instalou à superfície da terra, foi ali, nessa pacífica vilazinha rural, da Polónia, nesses quatro anos.




O extermínio em massa, dos Judeus, é conhecido, mas, para muitos deles, morrer nas câmaras de gás, terá sido uma morte “misericordiosa”, se comparada com as múltiplas formas de execução e tortura a que foram sujeitos:





Será possível imaginar o uso dado aos ganchos cravados nos postes?

Terão as pessoas noção de como os nazis eram metódicos no extermínio?




Um só exemplo: devido às cremações serem demasiado rápidas, e os fornos não terem capacidade de cremar, devidamente, os cadáveres, os prisioneiros designados para o efeito tinham que acabar de quebrar os ossos que restassem, com o objectivo de usar a mistura resultante como fertilizante, nos terrenos agrícolas, em redor do campo…



Em meados dos anos 90, escritas em várias línguas, foram colocadas algumas placas, no local, com a seguinte inscrição:

“Para sempre possa este lugar ser um grito de desespero e um aviso para a humanidade, onde os nazis assassinaram um milhão e meio de homens, mulheres e crianças, principalmente judeus, de vários países da Europa. Auschwitz - Birkenau 1940-1945"